» Anjo de Birdland

Por Kleber Batinga*

Birdland, também conhecido como Prainha dos Italianos, quebrando altas há muitos anos atrás. Foto: Kleber Batinga

O existencialismo e o capitalismo parecem impedir o homem de viver a plenitude da sua realidade e assim acaba tendo um impacto na sua felicidade.

Os dois juntos parecem extirpar as chances ou a oportunidade de ser verdadeiramente feliz, vivendo com a simplicidade e despojamento de valores necessário para isso.

Entretanto, alguns homens são capazes de construir com as suas próprias mãos a sua saga.

São capazes de ir de encontro a esses valores mundanos e consumistas e retiram da vida com a sua fé inabalável e a tenacidade do aço, o seu sustento para o corpo e para a sua alma.

“A missão do escritor é, sobretudo, trabalhar no preenchimento do vazio da existência humana”. Tudo estava sendo demais para o Anjo em More or Less City Land, então, ele resolveu largar tudo e partir. Cabelos loiros e longos, pele bronzeada, resolveu trocar tudo que tinha, e que não era pouco, por aquele pedacinho de paraíso perdido na imensidão da terra do nunca.

Arrumou tudo e partiu para nunca mais voltar. Ninguém entendeu, mas quem é que tem a capacidade de entender o que significa a verdadeira liberdade? Todos a desejam, mas poucos têm a capacidade de vivenciá-la integralmente no sentido mais profundo da palavra e do ideal humano.

Transformar esse desejo de liberdade, esse sonho, para a realidade de uma nova vida livre, é muito difícil.

Na primeira noite, os pássaros cantaram na caverna de Birdland enquanto dormia sob a luz de um luar extremamente belo e de cor azul prateada naquela praia de sonhos.

Escutava uma musica ao longe, para além do cantar dos pássaros. Viajava e sonhava pensando se pela manhã o mar estaria brilhando cor de prata com suas ondas e suas crinas brancas beijando as águas.

Amanheceu e ele despertou com o canto dos pássaros e o barulho das ondas e, assim que abriu os olhos, não acreditou: as ondas entravam em séries perfeitas, rodando sem parar. Uma após as outras, com o lip cortando as águas, como uma lâmina afiada.

O anjo ouvia o barulho das ondas quebrando na praia e não conseguia segurar o seu coração. Aquele chamado era irresistível demais, era como um grito primal.

Naquele momento ocorria um milagre, o milagre de Birdland. Dias muito especiais em uma terra encantada. Liberdade, uma sensação plena e reconfortante percorria todas as suas veias. Aquilo mudaria sua vida para sempre, uma experiência espiritual e iluminada.

A crista das ondas lambia a sua pele dentro do tubo e ele sentia como se estivesse nas entranhas da mãe natureza. Aquilo o remetia ao calor do útero materno. Era um prazer celestial.

Ele não sabia dizer se aquilo era arte, amor, prazer, sensação de bem estar. Simplesmente sentia toda aquela vibe mágica.

Ele não voltaria. Ele mudara de vez. O anjo de Birdland nunca mais voltaria, estava escrito. Aquilo seria para sempre.

Ronaldo Fadul, o Anjo de Birdland. Foto: Arquivo pessoal

Ao olhar do asfalto, na BR-101, aquela entrada escondida, e entrar pela estradinha de terra, ninguém poderia imaginar o tesouro precioso que existe escondido a poucos quilômetros dali.

Vamos vagarosamente com o carro chacoalhando, em dias de chuva, escorregando muito, o que às vezes pode significar até 3 horas e meia de viagem.

A estradinha longa e sinuosa, cheia de descidas e subidas, corre silenciosa por entre fazendas de cacau gostosos como mel.

Alguns descampados se revelam lotados de pés de cravo e lindos pássaros vermelhos, chamados Sangue de Boi, que nos encantam a vista.

Já pertinho da cidade do entroncamento que conduz a Engenhoca e Jeribucaçu. Da ultima curva, ainda lá em cima da serra, já se vislumbra o mar azul infinito e suas praias paradisíacas lá embaixo.

Estrada para o paraíso

Estamos nos anos 70 e, depois de algumas horas, chegamos ao paraíso encantado de Birdland, em uma pacata cidadezinha no Sul da Bahia: Itacaré.

Muitas histórias e lendas passam a povoar a nossa mente, a nossa imaginação vaga maravilhada, enquanto belas paisagens se descortinam aos nosso olhos.

Passa-se a mergulhar em todo o mistério que aquele lugar mágico e encantado nos desperta.

Um mingauzinho de tapioca logo na entrada da cidade para restaurar as forças e partimos para o tão desejado deleite: as praias magicas daquele pedacinho de paraíso, um pedacinho do céu na terra.

Quase sempre entre pontas de pedras, as primeiras praias, muitas delas ficam na cidade: Corais, Resende, Tiririca ou Chuveiro da Costa ou do Meio ou ainda a praia do lendário Seu Joaquim e Ribeira.

Inesgotáveis fábricas de direitas e de esquerdas, elas servem de abrigo, nos anos 70 e 80, somente para os veranistas da região de Ubaitaba, Gandu, Aurelino Leal.

O povo local é educado e amistoso e recebe muito bem aqueles que por aqui desembarcam.

A ondas

Os tubos por aqui são uma constante; trata-se de ondas fortes, cavadas e rápidas.

Como me dizia o Anjo: “Klebão, aqui, quando as ondas rodam, até as lagostas se agarram nas pedras”.

E o velho amigo Seu Joaquim, que tão bem nos recebia, uma vez me disse: “ Mô Fio, as ondas aqui no verão são pequenininhas, porém são perfeitinhas”

Deixava as minhas coisas na barraca que ficava acampada ali mesmo na praia ou, quando ia entrar no mar, deixava em cima das pedras. Ninguém mexia. Aliás, nessa época, raramente alguém passava por ali.

Assim, vi dias perfeitos, com as ondas enroscando nas pontas de pedra nas praias do Costa ou do Meio e na Tiririca, além dos dias gigantes, quando só dava para encarar de tow in, pois era humanamente impossível varar aquelas séries.

De manhã, sempre tinha um chocolate no quiosquezinho de palha, com a presença do velho Seu Joaquim e de amigos que até hoje ainda estão por lá: Elias, Silu, Caneta, Bocas. Comíamos um feijão de currute ao meio-dia, depois do surf. E à noite, as batidas do velho Joaca.

O tempo lá nessa época não passava para nós. Acordávamos e passávamos os dias surfando, pegando onda e trocando ideias sobre o mar e suas ondas, em paz com a natureza.

Depois tinha aquela ida pelos caminhos estreitos, no meio da Mata Atlântica, para as prainhas dos Italianos, Engenhoca, Jeribucaçu, Serra Grande e outras. Muito surf, muitas ondas perfeitas e banhos nas suas belas cachoeirinhas.

Numa outra história engraçada, fomos eu e Junior andando até Jeribucaçu, surfamos por umas três horas e voltamos andando. Na metade do caminho, os braços pesavam como chumbo e queríamos jogar as pranchas fora.

Nascer da lua, primeiro vermelha cor de fogo; depois, num alaranjado cor de fogo – O Anjo de Birdland – assim escreveu a sua história e é hoje uma lenda viva para com o qual temos que ter muito respeito.

Por ele ter acreditado nas suas verdades, enfrentado todo tipo de desafio e dificuldades, ter sobrevivido, criado uma família feliz e continuar fazendo o que mais gosta na vida.

A única hora que o tempo desatava a correr para nós, era quando chegava a hora de abandonarmos aquele paraíso perdido, o nosso Shangri-La, pois no ano seguinte não sabíamos o que aconteceria com a volúpia loteadora.

Se o paraiso do Anjo de Birdland seria invadido por milhares de pessoas frenéticas por absorver as coisas boas e deixar para nós um paraíso perdido..

Adeus, Birdland, bye bye Blackbird.

————
*Esse texto foi publicado originalmente no site SurfBahia (galeria com mais fotos disponível lá) e foi enviado ao Surf4ever pelo próprio Klebão, que autorizou sua publicação aqui.

– Para conferir outros textos/participações de Kleber Batinga aqui no blog, clique aqui.

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3 Responses to “» Anjo de Birdland”


  1. 1 Adriano Estacio out 08 2012 às 11:02 am

    Excelente materia … tudo se acaba nesta vida

  2. 2 rodrigo out 24 2012 às 2:56 pm

    te diria do farol…..

  3. 3 Fadul 713 mar 26 2014 às 3:41 am

    Tenho orgulho do que meu irmão foi e ainda é.


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