» Ficção ou Previsão…

“Esse texto é uma pérola do Pepê e merece uma republicação de tantos em tantos.” [Julio Adler, Goiabada, 15/07/2005]

(quando pronunciar a palavra areia, tirará um punhado dela de seu bolso e fará passarem de mão em mão para que sintam sua textura)

FUTURO DO SURFE

O futuro do surfe são as ondas artificiais. Essa frase do argentino Aguerre, dono da Reef Brazil, ziguezagueia em meu cérebro.
Sempre que desembrulhei pensamentos sobre o amanhã do surfe jamais passou pelas minhas telhas um futuro tão promissor. Achei que o futuro do surfe seria carregado nos braços de surfistas aventureiros que ousassem remar águas escondidas em cantos de ilhas do Oceano Índico; Ou que o futuro fosse uma chave marinha entregue à uma criança balinesa por uma gaivota de passagem, que permitisse à ela (a criança) entubar ininterruptos minutos por todos os canudos do planeta; Ou que o caminho do adiante do surfe seria desenhado por um anão australiano capaz de esticar com os arcos de suas manobras mensagens de palavras azul cristal; Talvez um shaper desmiolado inventasse dois pedaços de prancha semelhantes ao formato dos pés, e essas sandálias inaugurassem um novo jeito de caminhar e rasgar água… Mas não. Nada disso. Na argentina filosofia de Aguerre tudo já foi arquitetado. O futuro são as ondas artificiais, 24 horas por dia.
Não precisaremos depender da boa vontade física ou metafísica: Marés, dias de sol, vento sudoeste, kona wind, chuvas, ciclones, tempestades, terral, fundo de coral… tudo isso será descartado do cotidiano dos futuros funcionários do ofício de surfar.
O sujeito pega um cartão eletrônico entra numa academia de onda, regula a voltagem e a temperatura da água, o tamanho da parede, a espessura do lip e… pronto. Pega suas conquistadas ondas artificiais. Não é maravilhoso?? Vai ter toda uma infra estrutura mercadológica (essa é a parte que mais atrai os visionários) funcionando: açaí, granola, suco de frutas, (não terá batata frita nem hambúrguer pois surfista que se preza só come comida natural), sandálias, decks, calções, sungas… Paisagistas formados em renomadas escolas da califórnia desenharão nuvens e gaivotas nos acrílicos tetos; DJs produzirão transados sons ambientes simulando o barulho dos tubos de Pipeline, enquanto modelos da Reef Brazil aguardarão, pela porta detrás da sauna (com duplo sentido), os heróicos surfistas. Tudo funcionando direitinho… e todo mundo de crachá, como manda o Mercado do Terceiro Milênio. Vai ter lugar pra todos : Inclusive pros nossos filhos menos dotados fisicamente, que poderão estudar “Arquiteture of Articial Waves” em Universidades dos EUA, Alemanha ou Japão. Os laboratórios genéticos produzirão clones de Carroll, Curren, Occy, Potter e Slater. Eles terão suas agendas abarrotadas por frenéticas viagens, onde farão constantes demonstrações nas academias de ondas internacionais.
Uma coisa, entretanto, será fundamental em todas academias; sem a qual o sucesso das mesmas ficará seriamente comprometido: Salão de Histórias.
Esses lugares serão disputados à tapa já que nem a eletrônica nem a informática conseguirá impor ordem às suas concorridas cadeiras. Nos Salões de Histórias terá sempre um velhinho bem menino contando como fazia pra surfar na sua infância. Fazendo descrições dos caminhos esburacados e cheios de lama quando descobriu as primeiras ondas na Indonésia; ou quando seus amigos, depois de cruzar a vista com barbatana de tubarão, remavam assustadíssimos em direção à areia (quando pronunciar a palavra areia, tirará um punhado dela de seu bolso e fará passarem de mão em mão para que sintam sua textura). O velhinho vai falar ainda de uma época em que algumas pessoas acordavam junto com a aurora pra chegar na praia antes do terral, contando que na noite desses dias tomava-se cerveja e comia-se peixes daquela mesma praia. A praia que lhes cedia tubos e partia suas pranchas ao meio. A praia onde ninguém encontrava o botão do terral pra acionar. A praia onde tudo podia acontecer. A praia onde cabiam os acasos e onde as memórias eram sedimentadas.
Na sala de histórias do velhinho terá sempre uma reserva de água salgada. Serão lágrimas.

Pedro Cézar

________________________________________________Surf4ever

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8 Responses to “» Ficção ou Previsão…”


  1. 1 Michel mar 16 2009 às 8:26 pm

    ou seja se vivermos numa época assim, acabou a poesia e beleza do surf…

  2. 2 Fernanda Vasconcelos Torres mar 16 2009 às 9:37 pm

    E aí, Gustavo? Blz? Li uma matéria na Waves sobre pranchas recicladas com uma vibe super ecológica de dois amantes do surf, na Califórnia. Bem recente, acho que você vai curtir: http://waves.terra.com.br/novo/layout4.asp?id=35423&sessao=34

    Abç,

  3. 3 Fernando Mattos mar 18 2009 às 1:36 am

    po, galera, cês vão achar que é frescura, mas deu até vontade de chorar e um desespero de imaginar um futuro assim. Eu não quero viver pra presenciar algo parecido, não… todo o espírito de uma prática que é muito mais que um esporte terá morrido, e só terá restado a parte vulgar que surgiu nas últimas décadas. Quem sabe, nestas academias, ainda surfem de pranchas antigas, pensando que assim estão mantendo a essência da coisa… Tenho pena dos meus filhos e netos pelo estado em que encontrarão este planeta quando vierem ao mundo, e pena de quem tiver que surfar deste jeito por falta de uma praia limpa para surfar. Tenho pena do futuro.

  4. 4 Hugo mar 19 2009 às 2:14 pm

    … Se esse for o futuro do nosso amado esporte, como disse o Fernando acima, não quero estar vivo para presenciar isso.

    Surfe não é nada artificial, surfe é sentimento é alma.

  5. 5 MaiNe mar 19 2009 às 3:27 pm

    Salve Gustavo!!
    Conhecia o texto, IRADO! Espero que seja apenas mais um alerta para um caminho “errado” que o surf pode eventualmente seguir se continuar nas mãos de pessoas sem nenhum compromisso com o esporte, donos de “surf shops” que não vendem sequer uma simples barra de parafina, marcas de “surfwear” que não investem um centavo sequer em surfistas “de verdade”, comandadas por pessoas que nunca subiram numa prancha e que criam falsos “ídolos” do surf, garotos propaganda que venderam sua alma por alguns trocados tendo como principal objetivo ganhar campeonatos como se fossem máquinas de vencer baterias e triturar adversários.
    Acho que estou ficando velho meu Amigo…
    Quanto ao livro que vc falou, não tô sabendo de nada, mais gostaria muito de comprar um para ler junto com meu filho, se vc souber de mais alguma coisa me dá um toque!
    Forte Abraço!!

  6. 6 Surf4ever mar 19 2009 às 11:34 pm

    Valeu pelo drop por aqui e por deixarem suas opiniões sobre o texto de Pedro Cezar Duarte Guimarães, sugado lá do blog Goiabada e postado por concordar com a opinião do Julio Adler de que essa pérola merece uma republicação de tantos em tantos. Como vi que lá foi em 2005, imaginei que seria uma boa hora.

    Abraços,

    Gustavo
    S4e

    P.S – Fernanda, obrigado pela dica da matéria.

  7. 7 Neko mar 21 2009 às 10:09 am

    Alou Gustavo. Muito legal o texto. Acho que tem espaço para todos. Com esta imagem imaginei pessoas surfando em Brasilia, Belo Horizonte, Porto Alegre ou São Paulo. Oportunidades de desenvolvimento de novos atletas e treino para os do MAR quando estiverem longe. Nunca vão acabar as ondas nos oceanos, pelo contrário. Acredito que a tendência seja cada vez termos mais ondas do mar. E a burrice de poluir está com os dias contados. As crianças estão virando adultos e crianças respeitam a natureza. Boas ondas. Neko.

  8. 8 evandro abr 06 2009 às 5:55 pm

    não vejo a hora de construirem estas praias artificiais.
    pelo menos não precisaremos disputar ondas com playboys.


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